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Big Brother Brasil: a repetição do racismo e outras discriminações

Na noite de eliminação do Big Brother Brasil (BBB) da terça-feira (06/04), o apresentador Tiago Leifert, de maneira inédita, interferiu em uma situação de racismo. Chegou tarde esse posicionamento, principalmente quando pensamos em Rodrigo França, Rízia Cerqueira, Gabi Hebling, Babu Santana e tantas pessoas negras que passaram pelo programa e sofreram racismo sem qualquer posicionamento das Organizações Globo. E podemos caracterizar essa situação específica como racismo por omissão, como nos lembra Lélia González: “racismo por omissão e cujas raízes, dizemos, são encontradas numa cosmovisão eurocêntrica e neocolonialista da realidade”.

O desabafo de João Luiz Pedrosa em rede nacional, durante o jogo da discórdia, quebrou o silêncio e a suposta cordialidade da branquitude que em tudo culpabiliza o povo negro sem refletir profundamente sobre as estruturas sociais alicerçadas no racismo.  Por isso, afirmamos que não é brincadeira. É racismo. E como bem cunhou Adilson José Moreira é racismo recreativo, que expressa inúmeras ofensas racistas em forma das chamadas “brincadeiras” ou “piadas”, como se justifica Rodolffo. E a estratégia é mesma “eu tenho até amigos negros”, “na minha família tem alguém com esse cabelo”, “eu não tive a intenção de ofender”. Tudo isso fere a nossa dignidade e afeta a nossa saúde mental e física.

Mesmo com o posicionamento de Tiago em nome da empresa, o racismo não foi nomeado pela emissora. As Organizações Globo são uma empresa privada cuja concessão é pública e, portanto, tem responsabilidade sobre a veiculação de conteúdo que promove violação de direitos humanos e crimes. É importante lembrar que episódios de racismo, machismo, xenofobia, cultura do estupro e LGBTIfobia são frequentes nas edições do BBB. Precisamos questionar a ética desses programas que disseminam preconceitos sem qualquer responsabilização. Lutamos para que nossos corpos sejam representados, mas não queremos visibilidade a qualquer custo. Nesse sentido, a regulação dos meios de comunicação, defendida pelos movimentos sociais, é fundamental.

Em outros países, participantes do BBB foram expulsos por ações discriminatórias e reprodução de discursos de ódio. Por aqui, a Globo consente com racismo quando decide manter Rodolffo sem qualquer responsabilização por seus atos antes da eliminação pelo público.

Na mesma noite, assistimos Camilla de Lucas reafirmar que estava cansada de ensinar e que Rodolffo, que tem acesso à informação, deveria estudar. A fala de João Luiz e de Camilla de Lucas, além de expor a necessária regulação dos meios de comunicação, também evidencia a necessidade da implementação da lei 10.639, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. E é nosso papel cobrar a efetivação da lei 10.639 e a formação de professores em história e cultura afro-brasileira nas escolas, promovendo uma educação antirracista para toda a população. O letramento racial da população brasileira é uma necessidade urgente, uma responsabilidade a ser assumida de forma institucional e incisiva, não uma obrigação das vítimas do racismo.

Que as palavras de Camilla de Lucas ecoem e reverberem: “se vocês estão cansados de ouvir, nós estamos cansados de viver isso desde criança”.

Mônica Francisco é deputada estadual, pelo PSOL-RJ, e vice-presidente da Comissão de Combate às Discriminações e Preconceitos de Raça, Cor, Etnia, Religião e Procedência Nacional da Alerj

Crédtio da imagem: Reprodução da internet


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