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Deputada faz inspeção em maternidade estadual

Diante dos recentes casos de mortalidade materna, de relatos de violência obstétrica e de desrespeito aos direitos das mulheres grávidas, o mandato da deputada estadual Mônica Francisco, promoveu, nesta quarta-feira (11/5), uma inspeção na maternidade do Hospital Estadual Azevedo Lima, em Niterói. Durante a visita, os principais problemas observados foram improvisos na unidade por falta de espaço, como um posto de enfermagem pós-operatório que funciona dentro de um cômodo, lotação de quartos e falta de funcionários. Para discutir formas de melhorar o atendimento às gestantes, Mônica Francisco protocolou na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro a Frente Parlamentar contra a Violência Obstétrica e Mortalidade Materna. 

“Não podemos naturalizar a violência obstétrica. A gente precisa tocar na ferida. Temos que tipificá-la como crime porque isso não ocorre apenas no Azevedo Lima, mas em outras unidades também, um problema relacionado às práticas de saúde reiteradas. O maternar não pode ser violento”, afirma Mônica Francisco.

No Hospital Estadual Azevedo Lima, em Niterói, Tuya Gomes Pereira, grávida de sete meses, morreu de septicemia, aos 17 anos, em 10 de abril. O caso foi denunciado recentemente pela família da vítima, que alega negligência no atendimento prestado à adolescente. Outros dois casos de gestantes que perderam a vida na unidade de saúde nos últimos dois meses foram relatados ao mandato. 

A visita ao hospital foi acompanhada por representantes do Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro (Coren), pela Associação Brasileira de Enfermagem do Rio de Janeiro e pelo Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (Cedim). Na enfermaria para gestantes de alto risco, os quartos abrigam seis leitos, quando o espaço permite, no máximo, quatro. As camas ficam muito próximas umas das outras e há gestantes acomodadas em macas por falta de leitos. Um posto de enfermagem funciona de forma improvisada em um dos quartos. 

Com capacidade para cinco leitos, a UTI Neonatal recebe até oito recém-nascidos. Também foi observada superlotação no Centro Obstétrico. Na sala de pré-parto 2, com capacidade para 4 leitos, 12 mulheres estavam internadas. A sala de pré-parto 1, tem cinco leitos e todos estavam ocupados. A unidade de saúde conta com duas salas de cirurgia que atendem gestantes e uma sala de parto. Com  apenas duas enfermeiras e cinco técnicos de enfermagem, o Centro Obstétrico realiza de 18 a 20 procedimentos a cada 24h, – cesariana, curetagem, parto normal, entre outros. De acordo com os profissionais que acompanharam a visita, há um déficit acentuado de profissionais de enfermagem para atender com segurança e com qualidade a demanda da maternidade do hospital.  

Segundo Dilson Pereira, diretor técnico do Hospital Estadual Azevedo Lima, está programada uma reforma de banheiros, portas, paredes e climatização, com o objetivo de melhorar o ambiente. Mas, de acordo com Pereira, a obra não vai permitir a ampliação da quantidade de leitos, um dos maiores problemas da unidade, que é referência para o atendimento de sete municípios da Região Metropolitana. 

A falta de funcionários e estrutura para atender a alta demanda em unidades de saúde do Estado do Rio se reflete no índice de mortalidade materna, caracterizada pela morte de uma mulher durante a gestação ou em até 42 dias após o parto. 

No estado do Rio, durante a pandemia, a taxa de óbitos de mulheres nesse grupo a cada 100 mil nascidos vivos mais que dobrou, saltando de 73,5 em 2019, antes da Covid-19, para 155 em 2021. O crescimento foi ainda mais acentuado em São Gonçalo, pulando de 67,1 para 213,1. Os números são do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) e foram filtrados pela plataforma de informações da Secretaria estadual de Saúde, o Tabnet.

“É um absurdo, em pleno século XXI, o estado do Rio registrar tantos casos de mortalidade materna. Até porque a gente sabe que a maior parte das mortes poderia ter sido evitada com pré-natal e também atenção adequada às mulheres durante e depois do parto. Vamos verificar os principais problemas nessas unidades de saúde, que acumulam queixas, e cobrar por mudanças”, diz Mônica Francisco. 

Em paralelo, a construção do Hospital Estadual da Mãe, em São Gonçalo, que poderia desafogar o atendimento, segue paralisada. Em março, Mônica Francisco protocolou na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) uma indicação legislativa solicitando ao governador que retome as obras do hospital, paradas desde 2013. O esqueleto do prédio está abandonado. No local, o mandato de Mônica Francisco participou, no Dia da Mulher, em 8 de março, de um protesto pela retomada das obras, junto com a Roda de Conversa de Gestantes e com o Movimento Mulheres em São Gonçalo. Mônica também busca, no Poder Executivo, a execução de emendas que preveem investimentos em ações voltadas para a saúde da mulher.

História de Tuya –  Diante dos problemas relatados pelas mulheres, o mandato da deputada estadual está prestando apoio jurídico às mulheres vítimas de negligência no atendimento. A família de Tuya Gomes Pereira, que morreu no Hospital Estadual Azevedo Lima,  em 10 de abril, aos 17 anos, por causa de complicações na gravidez, relata que a unidade demorava muito a realizar os procedimentos médicos, o que prejudicou o quadro da adolescente, que era diabética e não fez pré-natal. Tuya acabou tendo o útero retirado dias após o óbito fetal e faleceu de septicemia cerca de 40 dias depois de internada no hospital. 

Segundo Claudiane Oliveira Gomes, mãe de Tuya, o Hospital Estadual Azevedo Lima alega que o feto chegou morto à unidade, mas a ginecologista que atendeu Tuya, ao dar entrada na unidade de saúde, havia informado o contrário à família. “Na noite que Tuya chegou ao Azevedo Lima, a médica disse que minha filha e a criança estavam bem. No dia seguinte, disseram que o neném estava morto. Como agora dizem que ele chegou morto ao hospital?”, reclama a mãe de Tuya. Nos primeiros dias de internação, Tuya foi submetida à hemodiálise, por causa de uma bactéria no sangue. Depois, o quadro só foi piorando. “Tinham formigas na luminária do hospital, que caíam sobre a minha filha”, protesta Claudiane. 

Tudo começou com uma queixa de falta de ar. Com 7 meses de gravidez, Tuya foi levada para a Maternidade Municipal Mário Niajar, a única no município. Segundo Claudiane, demoraram muito a socorrê-la, apesar da falta de ar que a impedia de caminhar. “O atendimento foi péssimo. Gritavam com ela”, afirma a mãe de Tuya. A adolescente precisou ser entubada e transferida para o Azevedo Lima, uma vez que a maternidade gonçalense não tem estrutura para casos complexos de gravidez, obrigando as mulheres a peregrinar até Niterói.


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