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Dia da Favela é celebrado com lançamento do livro “Porta Vozes da Resistência” na Alerj

Para marcar o início das atividades do Novembro Negro e o Dia da Favela, celebrado em 04 de novembro, a deputada estadual Mônica Francisco (PSOL) lançou o livro “Porta Vozes da Resistência”, no auditório da Alerj, nesta quinta-feira. A produção traz uma coletânea de textos publicados pela parlamentar, Davison Coutinho e Walmyr Júnior, como colunistas do Jornal do Brasil, de 2013 a 2017, na coluna Comunidade em Pauta. Os três escritores são de origem das favelas do Borel, Maré e Rocinha respectivamente.

Também participaram do lançamento, a ativista Dalva do Borel, do coletivo Mãe de Vítimas da Violência e da Rede de Instituições e Comunidades contra a Violência, e Felipe dos Anjos, historiador e presidente da FAFERJ – Federação das Associações das Favelas do Estado do Rio de Janeiro. 

Mônica Francisco falou do acesso à saúde, moradia adequada, acessibilidade, trabalho e renda e dignidade que moradoras/os das favelas ainda necessitam. “Não podemos mais continuar sendo a pele alvo, inclusive em reconhecimento fotográfico aleatório. Nossos filhos não podem continuar sendo encarcerados e mortos pela brutalidade do Estado brasileiro, que tem a mão pesada para nos oprimir e uma mão muito leve para garantir direitos”, disse a parlamentar, refletindo sobre o cotidiano dos corpos negros e favelados.

A deputada trouxe também a memória de luta e resistência do Borel na questão da  moradia, a consciência política que esse processo trouxe aos moradores e relembrando que neste ano o bairro completa 100 anos. “Muita história está narrada e eternizada por esses colunistas nesse lugar de memória que é esse livro. O Borel protagonizou a construção da primeira associação de moradores, que na época foi chamada de União dos Trabalhadores Favelados. É desse lugar que estamos falando, que garantiu a potencialização do nascimento da FAFERJ, onde várias favelas recorreram ao Borel que ali se organizava com seu Estatuto.”, disse a deputada, citando também o livro “As lutas do povo do Borel”, de Manoel Gomes, prefaciado por Luís Carlos Prestes.

Professor e doutorando em Desing pela PUC-Rio, Davison Coutinho conta que só entrava na PUC para votar com a mãe. “Agora ela vai entrar lá para assistir a defesa da minha tese”, disse o ativista sobre ocupar espaços. “Falar de favela é falar da cultura do Rio de Janeiro. Eram nossas mães e mulheres que estavam dentro das casas das patroas para elas poderem estudar. A favela é muito mais solução que problema, o problema é o descaso dos governos. Se hoje somos potência e cultura é por nós mesmos. Esse protagonismo é nosso”, explana o professor.

Davison também é fundador do Coletivo “Tamo junto, Rocinha” e disse que não tem um dia em que se veja uma lixeira sem alguém catando comida. Ele coloca que a expectativa de vida na favela é inferior e afirma ser inadmissível ainda lutar por saneamento básico, depois de 120 anos.

Também escritor do livro, Walmyr Júnior diz que não existe porta voz da resistência sem favela. “Favela é sobrenome desses e dessas que estão aqui nessa mesa. Ainda que não vejamos os resultados da luta de hoje nessa geração, mas aqueles que vierem depois de nós terão o asfalto pavimentado, como nós tivemos por aqueles antes de nós e fizeram por nós”, disse.

Gestor do setor de cultura e direitos humanos, Walmyr alerta que teriam outras páginas escritas no livro se fosse na contemporaneidade. “De certo faríamos menção àqueles que foram vítimas da Covid, por conta daquele genocida que não quer ver preto e favelado lançando livro na Alerj”, diz o ativista da Maré relembrando as mais de 600 mil mortes por Covid-19 e a negligência do governo de Bolsonaro.

Para ele, não tem como falar das favelas do Rio sem falar do Nordeste. “A Maré é uma favela de ocupação nordestina, com atividade pesqueira, ribeirinhos e pescadores que usufruíram da Baía de Guanabara. Minhas familiares contam que pegavam peixe da janela nas palafitas da Maré. Porque não aproveitamos também a nossa potência hidroviária? Nossa baía tá poluída hoje e a zona sul tá limpinha porque até tomar banho de mar é privilégio. Um capitalismo covarde, que instrumentaliza nossas vidas e mercantiliza nossos corpos. Quando não consegue nos punir e vigiar, nos extermina dentro das nossas casas”, indignou-se Walmyr, falando também da necropolítica nos territórios de favela. 

Formado em História pela PUC-Rio, ele diz que a única garantia que o Estado proporciona às comunidades periféricas é o perigo à vida. “Já estamos saturados de polícia. Esse livro é um suspiro, onde três favelados puderam comungar um das histórias dos outros e sobre as táticas que utilizamos para lidar com o território. Celebrar a vida, a comunhão, a partilha e a favela”, finalizou Júnior.

Mônica Francisco e Dalva do Borel

Já Dalva do Borel, mãe de Tiago Costa Correia da Silva, vítima de violência do Estado, disse que não temos o que celebrar. “A favela continua enxugando sangue como se enxuga gelo. Morre com 80, 120 tiros, ainda não temos muito o que comemorar. Meu filho, jovem de 19 anos, que foi executado sumariamente no Morro do Borel não foi morto por estar fazendo coisa errada, e sim por ser preto e pobre e estar na favela. Essa política de guerra às drogas é feita para proteger o Estado, o policial só aperta o gatilho, quem mata é o Estado. Quantas operações clandestinas nós tivemos durante a pandemia?”, disse, afirmando que o Judiciário também é racista.

Felipe dos Anjos, presidente da FAPERJ,  questionou sobre a história de resistência das favelas ser complementar à história da ditadura militar e lembrou da Caminhada das Favelas, que foi do Campo de Santana à Alerj neste mesmo dia. “Uma das nossas principais reivindicações hoje era a presença de câmera no uniforme dos policiais. Essa câmera também garante direitos aos policias, que são jovens, negros e de familias pobres. A última intervenção da Maré custou 1,7 milhão por dia. O que estamos vivendo é uma guerra, mas nós não declaramos guerra a ninguém. O fuzil é de guerra, as táticas são de guerra, a ideologia e a filosofia”, refletiu Felipe, que também é historiador.

O evento também contou com a poeta e jornalista Carmen Kemoly, recitação de trechos do livro e música com o cantor Gabriel Leão, além de sessão de autógrafo dos escritores.

Você pode assistir à cobertura completa do evento no nosso youtube, CLICANDO AQUI.


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