Nem tiro nem vírus: a sobrevivência favelada em meio à pandemia

Nem tiro nem vírus: a sobrevivência favelada em meio à pandemia

Governo não dá conta das vidas nas favelas e os moradores se articulam para combater impactos da covid-19

Falar de autogestão em favela é lembrar de uma história de ações independentes para não sucumbir à ausência do poder público no território. É fato que a pandemia do novo coronavírus acentuou a organização favelada frente à fome e a falta de estratégias em saúde para dar conta das demandas locais. Iniciativas que vão desde o mapeamento de casos à distribuição de alimentos e kits de limpeza para os moradores.

No que se refere à presença do Executivo, com ações de enfrentamento direto à pandemia, é possível ver que as do poder público são inferiores à articulação popular e comunitária nos espaços de favela. Muitas favelas estão desassistidas de serviços de saneamento básico, onde a falta de água ou a alternância de abastecimento é presente diariamente.

As ações articuladas dos moradores não devem receber elogios do governo Bolsonaro, na figura do então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, mas explicitar o que o governo pode e deve tomar como referência para ações e para a execução de políticas públicas para enfrentar o vírus nas favelas do país. Mais do que isso: pensar estratégias em diálogo com iniciativas e moradores – o que não se viu.

No Borel, por exemplo, na tentativa de frear a subnotificação de casos de Covid-19 ou o agrupamento equivocado, por parte da Prefeitura, de dados da doença na favela, um grupo de moradores criou o CoronaZap. A plataforma de monitoramento registra sintomas e outras informações fornecidas pela população e, a partir disso, faz um levantamento da situação na favela.

Diante do cenário de reabertura do comércio e por influência de discursos de políticos, como o de Bolsonaro, que disse que a doença era uma “gripezinha”, medidas de segurança contra a Covid-19, que eram minimamente seguidas e podiam ser percebidas no início da pandemia, deixaram de acontecer. Somente no Brasil, o número de mortos chega a quase 147 mil; já o de infectados se aproxima de 5 milhões.

O desabastecimento de água, que é uma realidade vivida por quem mora em favela no Rio e faz parte da luta favelada há anos, também é outro fator, já que ter acesso à água é fundamental no combate ao coronavírus. De modo geral, a falta de saneamento básico colocou em xeque a necessidade de se pensar políticas públicas efetivas urgentes que garantam a vida das pessoas faveladas dentro e fora do contexto de pandemia.

Por Mônica Francisco