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Plenária reúne mulheres negras, feministas, trans, cultura e debates da conjuntura e perspectivas de futuro

Para discutir mais presença feminina nos espaços de poder, a violência a que elas são submetidas nos legislativos e nos próprios partidos, assim como perspectivas de futuro, foram reunidas, no auditório da Alerj, mulheres de diversos estados do Brasil, da Argentina e do Uruguai na Plenária Feminista “Não farão políticas sem nós”, das 10h às 20h, nesta segunda (06), de forma híbrida.

No período da manhã, foi a vez das participantes internacionais ocuparem a mesa “Resistências Feministas na América”, e em suas falas elas trouxeram a realidade de seus países e as lutas travadas pelas feministas locais. Durante o evento, que foi realizado pelo mandato da deputada Mônica Francisco (Psol), não faltaram exemplos de como as dificuldades enfrentadas pelas mulheres não se encerram quando elas são eleitas. As discussões também trouxeram elementos sobre como a insegurança alimentar tem impactado seus países, e de que forma a precarização do trabalho e o excesso de obrigações atingem diretamente as mulheres.

“A política é um espaço muito pesado para a mulher, porque tem a lógica machista. Não é um espaço que dá a impressão que está para servir a população, mas para acirrar as competições, o que torna maior ainda a dificuldade de mulheres ocuparem espaços como o da Alerj. E estas barreiras se expressam não só pelo machismo, mas também pela covardia com que tratam as mulheres”, disse Graciela Rodriguez, que mediou a mesa e é coordenadora do Instituto EQÜIT–Gênero, Economia e Cidadania Global, faz parte da Rede de Gênero e Comércio e é membra da Coordenação da REBRIP – Rede Brasileira pela Integração dos Povos.

A argentina Verônica Gago – doutora em Ciências Sociais, professora da Universidade de Buenos Aires (UBA) e da Universidade de San Martin (Unsam), e pesquisadora do Consejo Nacional de Investigaciones Cientificas y Técnicas (CONICET) traçou um panorama da situação na Argentina, com inflação, precarização do trabalho e dívida com o FMI.

“Os ajustes estruturais geralmente são feitos por meio da política de cortes de gastos, como acontece no Brasil, a diferença é que aqui temos uma dívida brutal com o Fundo Monetário Internacional. Há precariedade de trabalho, as mulheres são sobrecarregadas com diversas tarefas, há a violências das corporações, a fome, o que nos deixa sem tempo até de fazer política. Dessa forma não há democracia, porque não tem soberania. Não há soberania sem que haja acesso à alimentação, sem a soberania dos nossos corpos”, concluiu Verônica.

A vereadora uruguaia, Fiorella Buzeta, pelo El Abrazo – Frente Ampla, feminista e ativista pelos direitos das pessoas com deficiência, também trouxe um panorama da situação do seu país e de como as mulheres estão no contexto de subtração de direitos. “No Uruguai há muita resistência feminista, porque a direita também tirou muitas políticas públicas, colocando as mulheres em lugar de invisibilidade” pontuou.

Patrícia González Viñoly, a Pata, feminista, militante de esquerda e cientista política, da Universidade da República, fez uma análise sobre as contradições e perspectivas atuais. “As mulheres sofrem com o acúmulo de tarefas impostas pelo patriarcado, pelo capital e ainda sofrem violência de gênero nos espaços. O que precisamos pensar é em como se transforma este sistema e constrói outro. Porque não queremos mais resistir. Queremos existir e sair dessa opressão do acúmulo das tarefas”, afirmou.

As discussões seguiram à tarde, com as mesas “Violência política de gênero”, “Mulheres negras e resistência: história, orçamento e políticas públicas” e “Não farão política sem nós”. A última mesa da atividade foi encerrada pela deputada Mônica Francisco, que discorreu sobre tudo que fora debatido até ali e fez uma memória sobre a origem da frase usada como título do evento: Não farão política sem nós! E com importantes pontuações das demais participantes. 

“É preciso desmistificar o orçamento e explicar às pessoas que criar emendas não garante a aplicação de recursos, uma vez que é o Executivo quem define e ele não vai alocar recursos onde ele não tem retorno político. A gente precisa dizer que é necessário correr atrás do Estado, falar com o governador e com os secretários. Precisamos descobrir o caminho para que estes recursos sejam liberados”, foi o que afirmou Clátia Vieira do Fórum de Mulheres Negras, na mesa temática que discutiu Orçamento e Políticas públicas.

Lúcia Xavier, da Ong Criola, importante referência na luta por políticas públicas de mulheres e da população negra, colocou que o interesse das mulheres negras no orçamento é histórico. Ela também destacou a saúde como um dos pontos a serem observados no orçamento, a saúde integral, incluindo a causa da morte materna, serviços sociais como creche e acesso a serviços.

Na mesa temática de Violência Política de Gênero, Fabiana Pinto lembrou que as mulheres negras seguem sem as proteções necessárias, apesar das várias denúncias de violências. “Teremos desafios em 2022 que os mecanismos atuais ainda não darão conta. Precisamos ficar atentas, porque, apesar dos avanços, não temos mecanismos para impedir que as violências ocorram nas casas legislativas e nos partidos”, disse Fabiana, representante do Instituto Marielle Franco.

Durante o dia de atividades não foram poucas as participações, além das já citadas, parlamentares como Benny Briolly e Talíria Petrone enviaram vídeos saudando as presentes. E pessoas da plateia, como Indianare Siqueira, da Casa Nem, e Wescla Vasconcelos fizeram falas. Outros nomes presentes, presencialmente ou por videoconferência foram Carol Vergolino, co-deputada do mandato coletivo Juntas de Pernambuco; de Neidinha Surí, representante dos povos indígenas da Amazônia; Luciana Boiteux, professora de Direito, vereadora suplente pelo PSOL; Fabiana Pinto, do Instituto Marielle Franco; a Antropóloga e professora Regina Novaes; Lúcia Xavier, da ONG Crioula; Clátia Vieira, do Fórum de Mulheres Negras da Alerj; Virgínia Figueiredo, ativista lésbica feminista, antirracista, antimanicomial, antiprobicionista, integrante do Conselho Nacional Popular LGBTI e do Levante Feminista contra o Feminicídio; Maiara Barbosa, da Executiva Estadual do Psol; Andrea Bak e Príncila Melo.

Coube à anfitriã, Mônica Francisco, fazer a fala final da atividade. “Pensamos em fazer esta plenária em outro lugar, mas efetivamos neste espaço, porque entendemos que precisava ser aqui. Com as companheiras da América Latina, que nos ensinam todos os dias. A frase “não dá mais para fazer política sem nós”, foi visceral, porque entendíamos – apesar da dor pela perda da Marielle – que realmente não é mais possível seguir na sociedade sem a nossa presença. Não queremos mais resistir, queremos construir (como bem disse a companheira). É irreversível a posição que ocupamos, porque não existe sociedade sem nossos corpos. O processo de ocupação não acaba com a morte de Marielle”, pontuou a parlamentar.

A deputada fez duras críticas aos aliados homens. “Estamos pensando pautas que nem os companheiros brancos, que são aliados, mas só o serão de fato quando entregarem os mecanismos de ocupação. O problema não é homens brancos ocuparem o poder. O problema é que eles ocupam o poder e criam mecanismos para nos excluir, e nós, mulheres negras, ocupamos espaços de poder para fazer a política como entendemos que ela precisa ser, inclusiva. A gente traz para ordem do dia a linguagem das nossas irmãs trans/travesti para a pauta e mostramos que todos se apropriam dela quando falam em “lacração”. Estamos aqui e sem que estejamos protagonistas desse processo, não há esperança de futuro. E como disse Marielle Franco, em sua última fala, vamos ocupar tudo”, concluiu.

Debates, música, poesia e homenagens

A plenária feminista não farão política sem nós não foi apenas de debates. Todas as participantes foram homenageadas com o diploma Não Farão Política sem nós, totalizando 90 mulheres diplomadas, dentre artistas, ativistas, sindicalistas e intelectuais. Houve apresentações culturais, com Jongo da Serrinha; Dani Capitu dando um recado para todos os machistas, Slam das Minas, Carmen Kemoly, Abel Luiz, Andréa Bak, Taís Feijão e o Cortejo Baque Mulher, que arrastou as participantes até o Buraco do Lume, numa grande manifestação cultural.


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