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Prêmio Zumbi dos Palmares reúne movimentos negros na Alerj

Em uma cerimônia repleta de emoção e denúncias de racismo, a Comissão de Combate às Discriminações e Preconceitos de Raça, Cor, Etnia e Procedência Nacional, presidida pelo deputado estadual Carlos Minc (PSB) e vice-presidida pela deputada estadual Mônica Francisco (PSOL), homenageou personalidades negras com papel relevante na sociedade através do Prêmio Zumbi dos Palmares, nesta segunda-feira, na Alerj.

Carlos Minc falou sobre o desconhecimento que temos pela história afro-brasileira e indígena, em contraponto à história eurocêntrica que estudamos na escola. “Sem os lutadores e as lutadoras não há luta contra o racismo, não há luta contra a intolerância religiosa, não haveria cotas nas universidades. Se há democracia pela metade, não há democracia para ninguém”, disse. Mônica Francisco relembrou sua trajetória, e falou sobre ocupar o espaço legislativo. “Para uma mulher, negra, favelada, que entrou na universidade aos 38 anos e trabalhou como empregada doméstica até 2002 não é simples. De fora parece ser porque vamos fazendo com que esse espaço seja cada vez mais nosso, mas não é simples”, disse a deputada, lembrando da CPI da Intolerância Religiosa tocada pela Comissão.

Danilo Alves de Jesus se emociona ao falar do pai, o professor Gilson Alves.

Em um dos momentos mais fortes da cerimônia, Danilo Alves de Jesus, filho do professor de Manguinhos, Gilson Alves de Jesus, vítima da Covid-19, um dos homenageados pela deputada Mônica Francisco, não conseguiu concluir sua fala nitidamente emocionado. “Perdemos uma grande referência, meu pai morreu numa situação que poderia ser evitada, se não tivesse gente dizendo que “era só uma gripezinha”. Ele faleceu na semana em que foi autorizada a vacinação dos professores…”, cessou a fala devido às lágrimas. 

Médica e diretora da Anistia Internacional, Jurema Werneck, junta à Mônica Francisco.

A médica, ativista pelos direitos das mulheres negras e dos direitos humanos, e diretora da Anistia Internacional, Jurema Werneck, indicada para receber o Prêmio pela deputada Mônica Francisco, lembrou da importância de mulheres negras ocuparem espaços de poder. “Quero agradecer, porque existem parlamentares que continuam fazendo desse lugar um lugar que precisa ser nosso. Tudo isso aqui vem das mãos e da luta das pessoas negras. Agradecer por ser parte dessa coletividade. Também quero saudar o secretário de Direitos Humanos que tem um desafio árduo para fazer com que o governador e os secretários de polícias cumpram seus deveres, garantindo os direitos de homens e mulheres negras desse estado. É um trabalho árduo, e Salgueiro está aí pra provar. Saúdo a minha amiga Mônica Francisco, que não desiste nunca”, concluiu. 

A solenidade seguiu com Raoni Garcia recebendo o prêmio, em nome do seu pai, o fotógrafo Januário Garcia Filho, também vítima de Covid-19, lutador incansável pela memória da população preta brasileira e para que personalidades negras não fossem invisibilizadas. Sua indicação ao prêmio tem um peso importante, pois feita em conjunto com o Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro (SJPMRJ), por meio de sua Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-Rio). “Nessa segunda feira, véspera de seis meses que meu pai alcançou o tempo dele, receber esse prêmio indica abertura de caminhos para mais pretos e pretas que aqui estão. Quero agradecer, e dizer que é através da educação e da imagem que a gente se vê, se reverbera e fortalece nossa auto-estima. Para além de resistir, que possamos existir, dentro e fora dessa compreensão histórica da vida”, disse o filho Raoni.

A parlamentar fez referência especial à homenageada seguinte. “Quero entregar essa homenagem a esta mulher que é uma figura muito representativa por toda a história de luta e resistência. Neusa das Dores: ativista lésbica, presidenta de honra da Casa das Pretas, um lugar marcante para nós”. Como Neusa das Dores não pode comparecer, devido a sua condição de saúde, Ana Beatriz, mais conhecida como Bia Onça, a representou. 

Professora Dra. Lourdes Brasil, fez a denúncia de seu caso de racismo na UFF.

Em vários momentos da cerimônia, homenageados denunciaram casos de racismo sofridos, como a professora de Economia da UFF, Lourdes Brasil, que sofreu forte ataque racista na véspera do último dia 20 de novembro; e Wallace dos Santos de Moraes, professor da UFRJ/Ifcs, que sofreu racismo de colegas em uma banca de seleção.  O secretário de Direitos Humanos, Matheus Quintal, estava à mesa e presenciou a denúncia.

Também foram homenageados Educafro, em nome de Frei Davi; Luana Braz, que foi gestora de promoção de Políticas de Igualdade Racial; Lebron Victor, da Ong Nação Basquete na Rua (NBR); Deusimar Corrêa, do Centro de Estudos Afro-religioso e Cultural Rumpaime Héviosô Zôônokum Mean; Ana Beatriz Bernardes Nunes, da Associação de Comunidades Remanescentes de Quilombos do Estado do Rio de Janeiro – Acquilerj; Jorge Adolfo Freire e Silva, um dos fundadores do Movimento Negro Unificado (MNU) e do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN); Joelson da Silva Santiago, coordenador geral da regional do Educafro no Estado do Rio de Janeiro; Juliane Erica Cristina, do Ponto de Cultura Ile Ase Iya Oju Omi; Wanderson Luna – Rede Carioca de Roda de Samba; Cláudio dos Anjos, Afrodesenvolvimentista – Emprendedorismo negro e Negro D’Ogum – presidente do Conselho Estadual do Direito dos Negros – Cedine.

A deputada Mônica Francisco encerrou a solenidade, agradecendo a todos que colaboraram e aos convidados, que vieram até de São Paulo. “Nós conduzimos a Comissão com muito compromisso e cuidado. Termos essas figuras sendo homenageadas aqui é fundamental para ocupar espaços como estes, espaços de poder que precisam ser enegrecidos. Para que não tenhamos mais que ter depoimento de pessoas, principalmente de crianças, dizendo que foram chamadas de macacas”, finalizou, fazendo referência ao depoimento da filha do homenageado Cláudio dos Anjos, que falou durante a sessão.

Durante a solenidade, houve também a presença do Mestre Ogã Cotoquinho do Afoxé Filhos de Gandhi do Rio de Janeiro, que contou um pouco da história do Ijexá.

Para assistir à solenidade completa, assista pela nossa página do facebook.

Fotos: Júlia Passos/Alerj


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